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Escuta,
filhinho.
Esta
noite, vendo você adormecer com a mãozinha no
rosto
e os cachos espalhados pela fronte,
sinto-me horrivelmente envergonhado.
Por
isso é que fugi para o seu quarto,
para estarmos sozinhos, os dois...
Ainda há pouco eu estava lendo o jornal na sala,
quando de repente me senti sacudido por uma espécie de remorso,
e vim, como um criminoso, parar-me aqui, perto da sua cama.
Sabe o que pensava, meu bem?
Em
todas essas coisas que hoje me irritaram tanto.
Esta manhã, quando você se preparava para a escola,
eu te repreendi severamente porque
você lavara o rosto como um gato.
Depois, eu te pus de joelhos porque você não engraxara os
sapatos.
E fiz um escândalo porque você derrubou no chão qualquer
coisa...
Na hora do almoço, ainda achei jeito de censurar-te:
"Você vai
entortar o copo de leite... Não ponha os cotovelos na
mesa...
Você está pondo muita manteiga no pão..."
Pouco depois, quando eu entrava no carro, você, da porta,
acenou a mãozinha, dizendo: "Até logo, papai!"

E
eu soube dizer-te: "Fica com os ombros direito. Você acaba
corcunda!"
E a coisa continuou.
Pois de tarde, vendo-te jogar bola-de-gude
com os companheiros no pátio, olhei os seus joelhos:
você tinha rasgado a calça!
Aproveitei a oportunidade para te humilhar diante dos amiguinhos,
ordenando-te que fosse andando na minha frente, para casa.
"Roupa
custa caro... Se você tivesse de pagá-las, teria
mais cuidado..."
Imagine, meu bem, da parte de um pai, que lógica mais estúpida.
E esta noite (você se lembra?) enquanto eu estava lendo,
você apareceu, timidamente, na porta da sala,
com uma carinha passada...
Eu levantei os olhos do jornal, aborrecido por me interromperem.
Você hesitou um instante.
" O que é que você ainda quer comigo?" resmunguei.
Você respondeu:
"Nada,
papai!" E então você se atirou no meu colo,
e passou os bracinhos em torno do meu pescoço,
e me beijou uma, duas, três vezes... não sei mais...
com um amor que só Deus te podia ter posto no coração,
e que só seu coraçãozinho seria capaz
de
prodigalizar com tamanha ternura.
E
você logo se fora, escada acima.
Pois bem, meu filho, só alguns minutos mais tarde
foi que o jornal caiu-me das mãos,
e senti aquele arrepio no coração,
e tomei consciência do meu terrível egoísmo.
Que
foi que o hábito fez de mim?
O mau hábito de queixar-me, de reclamar, de repreender,
e tudo isso porque você é apenas uma criança!
No
entanto, não era por falta de amor;
mas porque eu esperava demais da sua idade!
Eu te media com a escala da minha,
e estou bem triste comigo, pode crer.
Eu
te prometo que, a partir de amanhã,
nem minha impaciência, nem meu nervosismo,
nem meus aborrecimentos, virão mudar todo o amor que
eu te tenho.
Perdão,
filhinho.
Boa noite, meu bem.

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